Compras por impulso: como não cair nessa armadilha
Com as festas de
final de ano chegando começam os preparativos: enfeitar a casa, fazer a lista
do que será feito nas ceias, presentes de amigos secretos (só uma
lembrancinha!), presentes das crianças, agendamento no salão de beleza e,
apesar da promessa de não comprar roupa nova, sim, de última hora: roupa nova
(para não repetir foto nas redes sociais).
Agir por impulso e
sem planejamento na hora das compras tem sido a causa de rombos no orçamento de
muitas pessoas. De acordo com Adriana Rodopoulos, economista da Oficina de
Escolhas, as compras por impulso acontecem porque a gente tem a dificuldade de
adiar gratificações e de vislumbrar ao longo prazo.
"Ter uma vida
financeira estável implica em adiar o consumo e poupar. E não é poupar o que
sobra, é poupar assim que a gente recebe o salário - como se fosse uma espécie
de prestação - e acomodar as despesas dentro daquilo que sobra", afirma
Adriana.
A especialista
explica que, de modo geral, seres humanos têm dificuldades em adiar o consumo.
Ressalta que no caso brasileiro ainda temos um agravante: nosso processo
histórico.
"Vivemos um
período relativamente longo de inflação alta e dentro desse cenário adiar
consumo e poupar era praticamente impossível (e irracional) para a maioria dos
brasileiros. Depois, veio a estabilização da moeda e mais recentemente
experimentados um crescimento baseado na expansão da oferta de crédito. Então,
não houve um tempo para que a população pudesse estabelecer um hábito de adiar
consumo e criar poupança", explica a economista.
A sensação de
estar fazendo um bom negócio ao se comprar em promoções é um dos fatores que
potencializam os riscos de compras por impulso. Segundo levantamento do SPC
Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) e da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes
Lojistas), o maior motivo que leva os consumidores a comprar por impulso são as
promoções (51%), seguido de preço atrativo (31%), características do produto,
como funcionalidade e beleza (6%) e facilidade de pagamento (4%). Para Marcela
Kawauti, economista do SPC Brasil, descontos que, à primeira vista, facilitam a
compra, dificilmente serão compensados caso o consumidor não consiga pagar a
fatura do cartão de crédito e caia no cheque especial: "Nesse caso, a
compra pode sair mais cara, principalmente em tempos de juros mais altos".
O pagamento em
cartão ou cheque também contribui para a compra por impulso, porque segundo
especialistas, a gente não "sente" muito um pagamento quando ele não
é feito em dinheiro.
"Aliás, vale
a pena fazer esse teste: fique uma semana sem cartões na carteira, utilize
apenas dinheiro e preste atenção no seu comportamento, pode ser
surpreendente!", sugere Adriana.
Como evitar
compras por impulso?
A compra por
impulso é um dos principais motivos do descontrole financeiro, de acordo com o
SPC Brasil.
A falta de
equilíbrio do orçamento impede que os consumidores tenham uma reserva
financeira para lidar com gastos imprevistos ou realizar metas. Nessa situação,
o risco de inadimplência tende a aumentar, pois dívidas acumuladas podem
comprometer o pagamento de gastos essenciais, como as despesas da casa.
Monitorar o
orçamento mensal ajuda o consumidor a ter uma visão de sua renda e despesas e
evita que o dinheiro comprometido com gastos fixos seja utilizado para compras,
diz a economista-chefe do SPC Brasil: "Quem compra por impulso geralmente
não tem noção do quanto gasta. Ver onde está exagerando é um incentivo para
parar".
Adriana, da
Oficina de Escolhas, explica que no geral, as pessoas não fazem compras de alto
valor por impulso. "Às vezes acontece, mas é raro. Então, é preciso ficar
atento a esse comportamento porque muitas vezes a gente se recusa a comprar
algo que custa R$ 200,00, mas acaba fazendo dez comprinhas 'inocentes' de R$
20,00 ao longo do mês", alerta.
Outra dica da
especialista é: sempre que resistir a uma tentação, anote o quanto você
gastaria e no final do mês, some. "Multiplique por doze e veja o quanto
teria ido pelo ralo em um ano. Isso às vezes é surpreendente e pode ser uma
forma de começar uma poupança".
Caso ainda esteja
difícil, dificulte a sua vida: deixe os cartões em casa e utilize apenas
dinheiro por algum tempo. "A gente fica mais 'mão de vaca' quando anda só
com dinheiro", diz. Vale também pedir para amigos e familiares te
"policiarem" quando estiver caindo em tentação.
Se você tiver
grande dificuldade de controlar o impulso por consumo, é preciso ajuda
profissional. De acordo com Tatiana Zambrano, psicóloga que atua na área há 14
anos e é coordenadora do tratamento para compradores compulsivos no Hospital
das Clínicas em São Paulo, "gastadores compulsivos", sejam homens,
mulheres, jovens ou mais velhos, ricos ou mais pobres, têm em comum um passado
com problemas sociais e/ou psicológicos e encontram nas compras o alívio e o
prazer momentâneo do que precisavam. "É bem parecido com a
dependência química. Você começa a fumar o primeiro cigarro dos amigos, depois
compra seu próprio maço, até a passar a fumar todo dia".
Não é o objeto em
si, mas o ato de comprar. Diferentemente do vício em droga ou álcool, o ato de
comprar é "socialmente aceito", o que dificulta a percepção do
problema e a busca por tratamento, levando a um círculo vicioso.
O tratamento passa
por duas áreas: a psicológica, para tratar o problema emocional que leva a
pessoa a comprar, e a financeira, para começar a planejar cada centavo que sai
da carteira e tentar renegociação de dívidas, para aliviar o fardo carregado
diante do acúmulo de débitos.
Textos originais em:
Devedores Anônimos:
Imagem: https://www.shutterstock.com/
Mariane Menezes Roldan
Psicóloga e Neuropsicóloga
CRP 06/130169

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