A inclusão dos "normais"

Temos ideia da importância da necessidade da inclusão daqueles considerados exceção na sociedade. De fato, não se pode negar que há uma parcela da população que necessita de cuidados especiais. As condições de deficiência, incapacidade ou fragilidade, sejam permanentes, temporárias ou devido a fase de desenvolvimento, merecem real importância. É inegável que seria desigual, injusto, anti-solidário e mesmo desumano, tratar ou oferecer serviços de modo igual aos diferentes grupos. Tal percepção, gerou a necessidade de proteger grupos vulneráveis com leis específicas. Contudo, embora as necessidades dos grupos mais fragilizados sejam contempladas por tais leis, que têm por objetivo igualar à condição de cidadão comum e não de vítima, há muito ainda a ser feito para uma conscientização coletiva. Mas, o que é o normal?

A definição de normal já é, por si só, uma definição prática. O normal é dado pela constituição da maioria. A concepção de normalidade não raro apenas nos orienta em relação às questões observáveis, de ordem física, psicobiológica ou devido a um contexto social. Entretanto, é importante lembrar que existem algumas fases de fragilidades importantes que acontecem com todos os grupos. Fragilidades essas que talvez possamos considerar como necessidades especiais ou como uma situação de vulnerabilidade, que podem ser momentâneas ou que podem se tornar permanentes, conforme o cuidado despendido com elas. As fragilidades muitas vezes que não são observáveis de imediato, podem afetar o ser humano significativamente, como os eventos normativos – os que ocorrem no tempo esperado, a adolescência é um exemplo; e os eventos não-normativos, quando ocorrem inesperadamente ou fora de época, como o divórcio, a perda de um ente querido ou a perda de um emprego.

Todos nós envelhecemos e, se pensarmos preventivamente, poderemos nos questionar: como estará um idoso em fase de aposentadoria, se não for antes preparado para tal ruptura? E mesmo já tendo chegado à terceira idade, essas pessoas também precisarão de atenção para continuarem a se desenvolver como ser humano, uma vez que esse desenvolvimento se dá durante todo o ciclo vital. O desenvolvimento emocional nos primeiros anos de vida forma as bases da saúde mental e do alcance do potencial criativo. A formação durante a infância e a adolescência tem fundamental importância, pois serve como base para as etapas seguintes. Não é possível controlar o desenvolvimento e acontecimentos durante essas fases, mas é possível compreendê-los, aprender com eles e ressignificá-los. É necessário reelaborar o pensar para crescer na autoestima e ser criativo. E sendo criativo o ser humano descobre o Eu. É de suma importância ceder espaço para a descoberta de potencialidades que podem determinar as escolhas e o futuro de uma pessoa. E isso, na verdade, pode ser feito em qualquer etapa da vida, uma vez que o ser humano não é estático. É importante, entretanto, que se faça uma diferenciação entre o espaço dado para o autoconhecimento e a ideia de “perder tempo”; o tempo reservado para desenvolver um olhar sobre si mesmo, não é perda de tempo. E é algo raro. Talvez, por essa razão, vemos tantas pessoas esgotadas e com sede de significados que ajudem a compreender a razão de elas estarem no mundo.

Mas a resposta não se encontra do lado de fora. Portanto, o cidadão "normal" também pode precisar de cuidados especiais em algum momento de fragilidade na vida e, muitas vezes, não se dá conta disso. Quando falamos em psicoterapia ou orientação profissional, além de haver o uso de técnicas utilizadas nesse espaço, há algo ainda mais significativo: é um tempo de reflexão sobre si mesmo, algo difícil de se fazer por razões variadas e individuais. O apelo externo é muito grande, às vezes forçando um desvio nas trajetórias pessoais. São muitas informações, cobranças e comparações de diferentes pontos de vista com diferentes prioridades. Parece “lugar comum” dizer que o que é bom para um pode não ser igualmente bom para o outro, entretanto, há muita verdade nisso; mas continuamos atraídos por seguir um padrão ou uma tendência generalizada e, não havendo genuína identificação com essa escolha, pode-se estar colocando em risco a saúde mental. Veja, quaisquer que sejam as escolhas feitas, é impossível prever resultados, êxito, sucesso ou fracasso. Pois o resultado depende do caminho percorrido. É preciso valorizar a construção que acontece durante todo o percurso e esse percurso pode acontecer em etapas; e cada etapa é passível de êxito. É um processo que precisa ser respeitado.

É inútil a aflição ou demasiada ansiedade sobre resultados, pois realmente haverá perda de tempo com isso. Porque o resultado, nada mais é, do que uma resposta ao desempenho que será revelado durante o caminho percorrido. E nisso, podemos considerar aquilo que chamamos de prevenção. É necessário se desenvolver antes de fazer. E em cada etapa que se desenvolve, é uma etapa de conquista, que é um exemplo que devemos seguir dos portadores de necessidades especiais. Isso é igualdade. Afinal, quem é normal?

Referências: PAPALIA, Diane; OLDS, Sally; FELDMAN, Ruth. Desenvolvimento Humano. Porto Alegre: Artmed, 2010.

Comentários

Postar um comentário

Comentários ofensivos serão excluídos.

Postagens mais visitadas